À procura do significado da alimentação na história do homem, com a conseqüente criação de uma cozinha “humana e humanizada”, Catherine Perlés propõe uma distinção entre o ato alimentar (no qual o homem não se distinguiria das outras espécies animais em relação à nutrição) e o ato culinário, próprio à espécie humana (o homem é o único a cozinhar e combinar ingredientes). (MACIEL,2001)
Raimundo Nonato, no filme Estômago interpretado por João Miguel, mostra claramente a idéia de combinar ingredientes afim de um melhor sabor e aroma, onde ele aprendeu com seu chefe Giovanni (Carlo Briani), dono de um grande e sofisticado restaurante da região, que lhe ensinou perfeitas combinações de temperos, ingredientes, como queijo gorgonzola com goiabada, sofisticando a famosa receita de “Romeu e Julieta”. Ensinou-o também a apreciar as comidas, onde exigia certo conhecimento para tal, o que não havia na prisão por onde Nonato passou muito tempo, tentando incorporar sofisticados pratos a leigos no assunto.
O fato do homem ser um onívoro, que come de tudo,opõe-se ao fato dele selecionar o que irá comer, muito influenciado por cultura, religião, sociedade, família, entre outros fatores, o homem ignora seu poder biológico de digestão de todos os tipos de alimentos, afim de seguir um paradigma estipulado pela sociedade em que se insere, assim como comer insetos torna-se em algumas regiões algo muito apreciado ou muito desvalorizado pelas pessoas, como retrata no filme Estômago o Bujiú (Babu Santana) comendo farofa de formiga, muito saborosa inicialmente, mais após a conscientização do que estava ali, tornou-se algo repugnante para alguém de seu status estar comendo.
As cozinhas representam uma complexificação do ato alimentar, que compreende a preparação, a combinação de elementos, a “composição” de um prato, ou seja, a transformação do alimento em comida.(Maciel). Os diversos tipos de cozinhas exibidos no filme de Marco Jorge mostra-nos a grande variação de cozinhas existente, mais ou menos equipadas, limpas ou cheias de insetos, em lugar apropriados ou em selas carcerárias, segundo C. Fischler A cozinha é universal, as cozinhas são diversas.
A comensalidade é a pratica de comer junto, partilhando (mesmo que desigualmente) a comida, mas sua origem é tão antiga quanto a espécie humana. A comensalidade ajuda a organizar as regras de identidade e da hierarquia social – o banquete oferecido para o Etecétera (Paulo Miklos) é um bom exemplo desse tipo de hierarquização, onde os hierarquicamente são superiores, são os que são servidos primeiro, e onde os pratos principais ficam expostos ao seu alcance - , assim como ela serve para tecer redes de relações serve também para impor limites e fronteiras, sociais, políticas, religiosas, etc.
Fartura nos banquetes, assim como na época dos gregos e romanos, repletos de vinhos, bebidas, e excessos é muito claro no banquete para o Etecétera,mostra mostra um outro lado cultural dos alimentos não apenas a capacidade de alguns produtos alimentares em nutrir o corpo mais também o espírito: os alimentos-drogas. Um alimento-droga é um alimento que possui efeitos psicoativos, tais como os álcoos, que durante muito tempo foram considerados alimentos sagrados e divinizados em diversas regiões.
No trecho “Tem gente que diz que faz mal porque é fritura, né…Os médico diz que entope as veia…Mas esses médico são encanador, agora?”da conversa entre Nonato e Giovanni, mostra-se o desconhecimento do nordestino com os males que gordura em excesso podem causar. Em contra partida, em praticamente todas as culturas, os alimentos sempre foram relacionados com a saúde, não apenas porque a sua abundancia ou escassez colocam em questão a sobrevivência humana, mas também porque o tipo de dieta e a explicação médica para a sua utilização sempre influenciaram a atitude diante da comida, considerando a sua adequação a certas idades, gênero, constituições físicas ou enfermidades presentes.
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Referência Bibliográfica:
Filme “Estômago” de Marco Jorge. 2007
MACIEL, Maria Eunice. “Cultura e alimentação ou o que têm a ver com os macaquinhos de koshima com brillat-savarin?”. 2001
Mintz, Sidney. “Comida e antropologia- uma breve revisão”. 2001
CARNEIRO,Henrique. “Comida e sociedade: significados sociais na história da alimentação”.2005

Estou como anônimo, mas certamente as pessoas a quem se destinam esse comentário, por especiais que são, saberão quem eu sou. O fato é que o texto é muito bem escrito e, outra não poderia ser a conclusão a que se chega, pois foi elaborado por uma pessoa extremamente capacitada e que, especialmente, gosta daquilo que é - ou será - seu mister. Certamente será uma grande cheff, e certamente eu me deliciarei com seus deliciosos pratos. Ânimo, conte sempre comigo. O futuro que te espera é brilhante.
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